Ashen Lady’s Blog

30 Março 2009

Primeiras impressões

Arquivado em: Blogroll — Ashen Lady @ 6:25 pm

Curso iniciado. Única mulher, pra variar.
Cheguei no hall do andar do curso e tinha umas 30 pessoas espalhadas por ali, aguardando o chamado para as salas específicas de cada turma. Todos homens.
Quando entrei todos com olhares de curiosidade e uma frase de espanto sussurrada: Olha, uma mulher!
Se bonita eu fosse imediatamente teriam puxado conversa, não estando dentro dos padrões atuais do que se considera beleza fui vista como perigo.
Mulher feia = inteligente. Equação que todo homem nerd (ou não) têm como axioma.
Se sou inteligente posso tomar seus empregos, posso ter um cargo melhor, e pior, humilhá-los por saber mais que eles.
Mantiveram distância e no decorrer do dia fingiram que eu não existia.
Um único comentário maldoso foi feito. Falando sobre configuração de páginas na web foi dito que enfeitar até o exagero é coisa de mulher. O “coisa de mulher” foi dito num fio de voz.
Pensei em rebater mas fiz a egípcia, não iria criar caso logo no primeiro dia.
É bom eles pensarem antes de sairem cuspindo preconceitos porque eu ando no nível de tolerância zero.
Mas o curso tem muito a oferecer e o instrutor parece saber do que está falando. A parte mais difícil é aguentar 8 horas de informação.

27 Março 2009

Chuck Norris’ style

Arquivado em: Blogroll — Ashen Lady @ 7:11 pm

Sabe aquele filme em que o Adam Sandler faz um tratamento para controlar a raiva com o Jack Nicholson? Tratamento de choque. Pois é, na primeira vez que assisti não prestei muita atenção, afinal, Adam Sandler né? Mas na segunda vez eu fiquei deveras incomodada porque a identificação bateu forte.

O marido até ri da minha cara porque eu também tenho neuras em demonstrar carinho em público. Não me sinto bem expondo minha intimidade para estranhos.

Ultimamente eu ando muito, mas muito irritada com as pessoas e guardo tudo pra mim. Não abro a boca para dar um pio porque o desgaste de uma discussão é tremendo, não vai chegar a lugar algum e se mal tenho energia para acordar e trabalhar quanto mais para desperdiçar com gente que se orgulha da falta de educação.

Com isso eu vivo gritando em pensamento com adolescentes, dando pescotapas imaginários em espertinhos, me imagino aplicando voadoras no plexo solar de idosos com comportamento de crianças mal criadas. A lista de golpes imaginários é extensa. Destruição total.

Às vezes eu penso no quanto toda essa raiva deveria estar sendo colocada para fora de maneira mais produtiva.

E fico tentando encontrar uma explicação para entender como o mundo ficou assim e não encontro a resposta, a única coisa que eu sei é que eu fiquei para trás, tão passada. Porque não adianta ficar reclamando que não há mais educação, esse é o mundo atual. Adaptação é o que nos trouxe até aqui. Tio Maquiavel já dizia que devemos viver no mundo como ele é e não no como queríamos que ele fosse.

Não achei que seria tão significativa a mudança de século, mas essa é a explicação mais plausível, eu sou do século passado, literalmente.
Eu sou o passado perdido no presente.

26 Março 2009

Há vagas

Arquivado em: Blogroll — Ashen Lady @ 6:46 pm

Na empresa onde eu trabalho estamos procurando por um novo funcionário. Descobri que:

- De uns 30 currículos, apenas 1 era de uma mulher. Uma pena. Acho que mulheres naturalmente seriam melhores profissionais nessa área por serem mais detalhistas.
- Algumas pessoas mentem descaradamente sobre conhecimentos que não possuem.
- Algumas pessoas insistem em achar que já ter ouvido sobre um assunto é o mesmo que dominar o assunto.
- Algumas pessoas recém-formadas e sem experiência esperam ganhar salário de deputado.

E eu achando que não daria conta de aplicar um teste prático porque ainda estou estudando os conhecimentos exigidos, morrendo de medo dos candidatos perceberem que ainda não sei muita coisa, percebo que conheço muito mais que gente experiente.

24 Março 2009

Organização

Arquivado em: Blogroll — Ashen Lady @ 8:50 pm

No final de semana organizei o guarda-roupa. Nem o do marido escapou. Fica tão bonito as gavetas arrumadas e organizadas, pena que não dura muito tempo, alguns dias e já está tudo bagunçado novamente.

Não digo que sou viciada em organização porque algumas coisas minhas são completamente bagunçadas. Eu acumulo recibos e notas na gaveta até não poder mais e só então quando fico irritada é que eu resolvo guardar tudo nas pastinhas devidas.

Agenda eu já desisti. Eu tenho um caderninho de anotações na mochila e só troco quando não houver mais folha limpa para rabiscar. O problema da agenda é que geralmente se passam semanas sem anotações e quando você vai anotar alguma coisa fica aquele espaço gigante em branco. Essas folhas e folhas sem nem um rabisquinho me desanimam e lá pro mês de abril eu já desisti de usá-la. Só usa agenda efetivamente quem tem compromissos fora do escritório, quem visita clientes ou obras, quem tem reuniões, conferências e palestras. Se não tiver isso, é papel jogado fora.

Fora que eu tenho dó de usar quando a agenda é bonitinha, porque eu rabisco mesmo, textos, planilhas, contas, trechos de códigos, desenhos de possíveis decorações da sala, do banheiro, e quando vou ver está parecendo caderno de menino relaxado da quarta-série. Há muito tempo que eu desaprendi a escrever com caneta, minha letra virou um garrancho, principalmente se eu anoto com pressa. No final é só um emaranhado de garranchos e rasuras.

E quando eu anoto alguma coisa e depois não entendo o que é? Horas tentando decifrar o que raios significa o hieroglifo. Na maioria das vezes eu desisto e a informação vai parar no limbo das informações, junto com números de telefone sem nome.

20 Março 2009

Ingressos de ouro com diamantes

Arquivado em: Blogroll — Ashen Lady @ 8:51 pm

Eu devo estar ganhando muito mal.
Ou isso ou sou muito pão-dura.

Show do Radiohead = 200 reais
Show do Oasis = 180 reais (o mais caro custa 400 reais)

Eu acho abusivo.
Estou lamentando não ir ver nenhuma das duas mas me recuso a pagar esse preço extorsivo.
Mas o que chateia mesmo é depois ver as fotos de subcelebridades que ganharam ingressos VIP do patrocinador e nem sequer sabem citar uma música da banda.

Só em um caso eu abriria uma exceção: AC/DC. Se os caras vierem tocar aqui no Brasil eu até topo pagar essa montanha de dinheiro, multiplicada por dois porque o marido também vai querer ir.

16 Março 2009

Com a marvada pinga é que eu me atrapaio

Arquivado em: Blogroll — Ashen Lady @ 7:48 pm

No caderno Ilustrada da Folha saiu uma matéria sobre as melhores músicas caipiras de todos os tempos.
Adoro música caipira. Percebam como o ser humano é complexo, o gênero musical que eu gosto, que acompanho e consumo é rock, para ser mais exata heavy metal, mas o estranho é que eu sou uma metaleira que gosta de música caipira.
Desde pequena eu ouço esse tipo de música por causa do meu pai, que só ouve isso.
Quando eu saí de casa uma das coisas que eu mais senti falta foi de alguns hábitos do meu pai.
Eu não me preocupava com a hora de levantar e nem tinha despertador, meu pai é quem me acordava para trabalhar.
Ele acorda sempre às 5 da manhã, hábito de quem trabalhou na roça e madrugava num emprego na cidade grande.
Depois fazia o café, o cheiro bom invadia a casa, e enquanto eu tomava banho ele ia buscar o pão, só depois é que ia fazer a caminhada dele.
E durante o tempo em que eu acordava emburrada e me preparava para trabalhar o rádio dele estava ligado e tocando moda de viola.
Era a trilha sonora do meu despertar.
Quando eu ficar mais velha e me aposentar tenho planos de aprender a tocar violão. Esse é o meu projeto de aposentadoria. Vou finalmente aprender a tocar um instrumento. Também quero aprender sobre música clássica, mas o violão é pra tocar música caipira.
É claro que não vou chegar nem perto do talento da Helena Meirelles, mas quem sabe eu anime as festas fazendo cover da Inezita Barroso.

13 Março 2009

Conhecimento nunca é demais

Arquivado em: Blogroll — Ashen Lady @ 3:21 pm

Quem foi mesmo que disse “Só sei que nada sei?”. Platão? Bom, seja lá quem disse estava absolutamente certo. Quanto mais a gente sabe mais percebemos que não sabemos nada.

O fato é que estou adentrando um admirável mundo novo e são tantas coisas a aprender, e rápido porque o tempo urge e meus prazos são curtíssimos.

A dificuldade está em ter tempo hábil para aprender corretamente, porque eu já cheguei num nível que não dá mais para ser superficial. Não consigo mais simplesmente apertar tal botão para funcionar tal coisa, eu preciso saber exatamente porquê estou apertando esse e não aquele botão.

E tem tanta coisa para aprender, tanta mesmo que fica até difícil saber por onde começar. E como a internet tem material! Poderia passar dias lendo, lendo e lendo.

Driblar o cansaço e principalmente o sono não é fácil, eu preciso de mais de 8 horas de sono para acordar bem disposta, morro de inveja de quem precisa de menos de 6 horas, mas não tem jeito, é do meu corpo, então paciência, vamos no meu ritmo, máximo de concentração em um mínimo de horas.

Alguns se admiram por eu estar na mesma empresa há mais de 10 anos, perguntam se não enjoou, cansou ou estagnou. Não, não e não. A quantidade de informação nova que chega todo dia faz com que tudo mude o tempo todo.

Se eu tenho alguns dias chatos? Claro que sim. Tem dias que têm trabalhos que não envolvem muito pensamento, mas apenas técnica, tem dias que tenho que refazer tudo porque mudaram uma detalhe que parece insignificante para quem é de fora, mas que altera toda a linha de raciocínio para quem está dentro. Tem dias que eu perco a fé na humanidade, nesses momentos é certo que passei o dia inteiro tentando explicar o óbvio, e se vocês não sabem ficam sabendo agora, o óbvio é tão simples que chega a ser complexo. Acreditem. Exatas também filosofa.

Mas não é reclamação, na verdade eu ando eufórica e ansiosa, demais até, porque eu já queria por a mão na massa, queria já saber alguma coisa para aproveitar melhor as oportunidades de esclarecimento. Porque eu sei que as dúvidas mais complicadas só vão surgir quando eu estiver trabalhando em cima. Enquanto estudo é tudo tão novo que só me preocupo em entender as linhas gerais, detalhes e dúvidas veem depois.

Até meus sonhos andam a todo vapor. Um mais estranho que o outro, bizarrice atrás de bizarrice, e todos com elementos de ansiedade. Nunca fiz terapia, mas nessas horas aquele famoso austríaco que vive nos cantinhos me observando e fazendo anotações começa a dançar macarena só para chamar minha atenção, me convidando a tomar um lugarzinho no divã e fumar um charuto, mas algumas coisas são tão óbvias que nem precisa de análise.

Mas é isso. Se tudo der certo, além de satisfação pessoal virá a financeira também (dedos cruzados para isso).

11 Março 2009

Curso Novo

Arquivado em: Blogroll — Ashen Lady @ 8:23 pm

Vou começar um curso nesse sábado para aprender alguns truques novos.
Serão infinitos sábados das 10:00 às 19:00 até completar 124 horas.
Vida em suspensão pelos próximos meses, porque quem trabalha de sol-a-sol durante a semana só tem o sábado para resolver os problemas. Agora eu não tenho mais.
E ainda bem que a empresa está bancando o curso porque ele é muito, muito caro.
Espero não ficar para trás porque o curso é avançado e pressupõe que eu tenha alguns conhecimentos como pré-requisitos, estes que eu adquiri sozinha e não pratiquei, portanto, pode ser que eu tenha que usar os domingos para correr atrás do prejuízo.
E o medo?
Medo de o curso ser uma porcaria.
Medo de só ter homem babaca, incluindo o instrutor, porque TI é uma área masculina e concentra um número muito grande de machistas, talvez só perca para a minha área de formação, construção civil.
Medo de só ter leitores da Info e Você S/A.
Medo de não aguentar 8 horas direto de informações novas e complexas.
Mas vamos que vamos que enfrentar qualquer coisa medonha é melhor que ficar parada.

8 Março 2009

8 de março

Arquivado em: Blogroll — Ashen Lady @ 11:35 am

O manifesto abaixo foi escrito pela Marjorie e faz parte do Movimento Feminismo e Libertação. Eu não preciso adicionar mais nada, esse texto representa a mim e todas as mulheres que abriram os olhos para a dominação sutil (às vezes nem tão sutil) e constante que sofremos.
Esse dia é para as mulheres que lutam contra essa dominação, que não se curvam diante das exigências absurdas feitas em nome de uma “diferença biológica”.

Dispenso esta rosa!

Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: “parabéns”.

Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.

Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.

Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a — afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.

A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro.Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” — o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.

Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.

Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?

Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.

A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.

Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.

Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio, isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.

Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.

…Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu.


4 Março 2009

Brasil-il-il-il

Arquivado em: Blogroll — Ashen Lady @ 5:23 pm

Só o melhor da política brasileira:

- Collor II, o retorno

- Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, ou família Sarney, eternamente Maranhão

E como nem só de gente bunda esse país merdinha é feito:
Ato público contra a FSP
vladimir_herzog

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